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sexta-feira, novembro 25, 2005

Totó no Botswana

 pelO Totó 


Por razões profissionais fui ao Botswana. É um país que faz fronteira com o Zimbabwe a nordeste, com a África do Sul a sul e sudeste, com a Namíbia a oeste, e não tem qualquer fronteira com o mar. A maior atracção natural é o delta formado pelo Okavango, um rio que nasce em Angola e que se estende por mais de 1500 km até desaguar no Botswana, no deserto do Kalahari. As reservas de animais selvagens ao longo do rio são o chamariz turístico deste país. A capital é Gaborone, que fica a 30 km da África do Sul, e foi aí que este Totó fez a sua vidinha. Feita a introdução para situar os leitores, que a esta altura se interrogam se este é um blog sobre viagens, vamos ao que interessa: a música.
Não sou grande conhecedor da chamada música do mundo, que aliás acho uma designação redutora e condescendente, própria dos países do Norte que gostam de catalogar tudo para arrumar mais facilmente nas prateleiras compradas no IKEA. A música tradicional, seja de que país for, regra geral não me atrai: do fado ao blues, do flamenco ao country, do celta ao reggae. Abro algumas excepções: o tango, o samba e o jazz - música tradicional americana, se considerarem as suas raízes negras no delta do Mississipi. As tentativas para modernizar a música tradicional, que na maior parte dos casos se limita a acrescentar uma batida dançável, soam-me ridículas. Há no entanto algumas experiências que me parecem bem sucedidas: o aproveitamento das raízes indianas na música dos Asian Dub Foudation, Nitin Sawhney, Cornershop ou Talvin Singh; o tango dançável dos Gotan Project; a fusão entre o samba, a bossanova e o jazz que deu origem ao drum'n'bass de Kruder & Dorfmeister; o folk ligado à corrente dos fino-suecos Hedningarna. Mesmo os que acham que estas bandas não trouxeram nada de novo à música têm que reconhecer o mérito de trazerem para o mainstream sons abandonados.
Seja em que país estiver não procuro as modinhas locais. Não é por estar no Chile que de repente vou começar a achar piada aos tocadores de pan pipes e a deliciar-me com o 'El Condor pasa'. Procuro o que de mais contemporâneo exista, na arte ou no modo de vida. Procuro a música de que gosto, e cada vez gosto mais da fusão da música electrónica com outros géneros. E gosto muito de dançar. Cada vez mais esse me parece o objectivo maior da música. Na adolescência fui um shoegazer, ou, como se chamava cá, um vanguarda, numa altura do auge do indie e do gótico, quando a música de dança era abominada e considerada um género menor. Esse estigma ainda se mantém mas vai-se esbatendo, e a música de dança vai ganhando credibilidade dada pela fusão com o rock: Vitalic, Bloc Party, !!!, LCD, Ladytron ou Soulwax são alguns exemplos.
Gosto de dançar mas detesto a maior parte das discotecas. Em Portugal, seja numa discoteca pequena de província ou num ex-armazém armado ao pingarelho, com um porteiro antipático e meia dúzia de brasileiras seminuas a dançar em cima de pequenas plataformas como se a vida delas dependesse disso, o ambiente é sempre o mesmo: um calor infernal, luzes a piscar, som demasiado alto, ausência de espaços agradáveis para descansar e refrescar o corpo. Tudo está planeado para cumprir uma finalidade: o máximo consumo de álcool possível. Mas o que mais me irrita nas discotecas é o habitual cerco à pista de dança feito pelos voyeurs de pulôver pelas costas e copo de whisky na mão. Na pista a animação não é muito maior, corpos moles que se abanam muitas vezes com as mãos nos bolsos, como se estivessem à espera da vez no talho. Em Gaborone 'descobri' uma discoteca agradável com uma zona ao ar livre, música negra como seria de esperar: soul e hip hop americanos, house com laivos tribais. Mas o que me fascinou foram aqueles corpos suados totalmente entregues ao prazer da música e da dança, como em Portugal só temos oportunidade de sentir em alguns festivais de verão.

14 Comments:

Anonymous astropastor disse...

Bela descrição do panorama Português. So faltou mesmo falar do cerco apertado às miudas, e os olhares à matador (comia-te toda).

25/11/05 5:17 da manhã  
Blogger Extravaganza disse...

excelente descrição..quase que me sentia lá :)

25/11/05 9:27 da manhã  
Blogger playlist disse...

Que fabulosa descrição..Fantástico!!

25/11/05 11:58 da manhã  
Blogger Kushinada San disse...

gostei principalmente da parte dos corpos suados............

25/11/05 12:34 da tarde  
Blogger O Puto disse...

Excelente descrição! Eu tb gosto imenso de dançar despreocupadamente e normalmente não ligo a essas convenções sociais estúpidas das pistas de dança em Portugal. Mas uma das minhas pistas preferidas é lá em casa mesmo.

25/11/05 1:08 da tarde  
Blogger Ricardo Salazar disse...

tu danças????

P.S. excelente texto.
by the way, será de referir que cá na vila é dificil de fazer com que as pessoas dancem pelo prazer de dançar.
sempre o estigma de " se mostrar que me estou a divertir faço figuras ridiculas".

aqui só dizemos: dance dance dance to the radio...

até ao 3º de dezembro ( e queremos um dj dançante ).

25/11/05 1:37 da tarde  
Anonymous nel disse...

Temos de fazer qualquer coisa quanto a isso, não podemos cair no portuguesismo básico e ficar pelo lamento inconsequente. A música, especialmente nas discotecas (odeio esta palavra, mas gosto de biblioteca) serve para dançar, para suar, pular, para engatar ... tudo menos para segurar copos embaciados ao balcão...

25/11/05 3:30 da tarde  
Blogger O Tipo disse...

Excelente descrição! Não vou a discotecas (salvo honrosas excepções) pela música chapa-5 do costume, apesar da experiência sociológica enriquecedora que é observar a fauna. Prefiro mesmo bares com boa música e melhor companhia!

25/11/05 10:05 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

Oh TOTÓ:
Que relação pode haver entre a orelha que Van Gogh perdeu num acesso de loucura, movido pela mais doentia das paixões e a que é encontrada na relva de um jardim no filme de David Lynch «Blue Velvet», vestígio de um crime orquestrado pelo mal e não, simplesmente, obra do acaso ou de uma sociedade em ruptura? Será a mesma orelha? De certa forma sim, porque tanto uma como a outra são indícios materiais de um anacronismo, uma disfunção, uma derrapagem da realidade...
Eheheh!!!
Boa, TOTÓ.
Gostei de ler.
Ass: A Besta.

26/11/05 12:10 da manhã  
Anonymous Anónimo disse...

tens que me explicar os corpos suados ... big tasties ... isso sim ...

27/11/05 9:32 da manhã  
Blogger kimikkal disse...

Excelente texto, ás vezes é preciso ir para fora de forma a ver em perspectiva o que se passa cá.

A foto que tiraste da fauna nas discos é bastante fiel e aconselho um livro onde essa temática está mais aprofundada, "Morcegos e borboletas nocturnas", onde fala de certos gajos que vivem da noite e para a noite (morcegos), enquanto vão-se alimentando de "borboletas nocturnas", as gajas que andam na noite em busca de $$$ como as borboletas nocturnas buscam a luz. Muitas delas acabam como as suas congéneres voadoras, queimadas pela luz enganadora de uma lampada (morcego negociante de substancias proibidas).

27/11/05 11:04 da manhã  
Blogger FDV disse...

muito bom texto.

tal como o tipo, também prefiro bares com boa música e melhor companhia.

cumprimentos.

27/11/05 11:55 da manhã  
Anonymous Ricardo Saleiro disse...

O problema é que para suportar a musica que passam nas discotecas e preciso mesmo beber! é um ciclo vicioso, o lobby dos copos de fino. Abraço

28/11/05 6:45 da tarde  
Blogger Sana Compaña disse...

Boas meu, atopei este blog de casualidade. Son galego e quería postar a minha opinión.
Eu penso que todo é dependido de gustos porque se ti escuitas a musica de Hukwe Zawose ou de Nusrat Fateh Ali, de seguro que nao poderás olvidar eses ritmos tradicionais como ti os chamas. Escuita o album de Nusrat fateh ali khan 'must must' e atopará-la musica de asian dub foundation e entenderás que os asian dub son a evolución de Nusrat pero con tintes metaleiros.
Se escoitas a Hukwe Zawose atoparás un album fundamental producido con Michael Brook chamado Assembly. Se escoitas a Youssou N'dour ou a Ismael Lo, inclusive a Femi Kuti (fillo do mítico Fela Anikulapo Kuti)atoparás o esprito do Senegal e entenderás que toda a música que escoitas ven de alí.
Antibalas afrobeat copia a Fela kuti, Javi P3z copia a fela kuti, Asian dub foundation imitan a Nusrat fateh alí khan e máis fan versiones del mesmo.
Que mais podo dizer, e que a música tradional e mesmo que outras músicas. Estamos acostumados a escoitar musica tradicional comercial, é dizer, a que se vende pero se te informas poderás conseguir musica tradicional moi boa. A parte dos artistas xa mencionados tamén aconsello:
Fanfare Ciocarlia, Yann Tiersen, Goran Bregovic e moitos máis artistas que eu nao coñeço e que están ahí.

26/12/05 12:12 da tarde  

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